Violência na História

Regina Maria da Cunha Bustamante
José Francisco de Moura
(organizador)

      A violência acompanha a História. Desde os tempos mais antigos, o confronto cotidiano, dramático com a violência marca as andanças de homens e mulheres pelos caminhos incertos da História. Nos últimos dois e três séculos, com o advento da modernidade e das suas transformações do humano e do social, foi surgindo aos poucos um sentimento de confiança na possibilidade de conter, de canalizar a violência para a construção de relações livres, iguais e fraternas. No cenário reinventado da História, o mito da não-violência confronta o passado nos moldes da utopia. Todavia, as últimas décadas do século passado, marcadas pelo cansaço desta modernidade que perseguia projetos idealistas tecno-científicos e referenciava-se às grandes narrativas, sofrem um refluxo teórico e político, de dimensões ainda imprecisas, em direção ao um novo fatalismo, a um calmo desespero, a uma perda da confiança na real possibilidade, antropológica e política, de superar a violência como condição existencial e concreta da vida humana e da construção da cidade. Os ensaios aqui apresentados, diversos em suas abordagens teóricas e recortes históricos, refletem o atual limiar histórico em que são produzidos entre as duas modernidades acima apontadas: ao mesmo tempo modernos, percorrendo as formas, ritos, momentos históricos, por vezes em busca de sinais, mesmo minúsculos, de superação da violência, espelham, todavia, metodologicamente uma nova postura, tardo-moderna, nada prescritiva e pouco esperançosa com relação à possibilidade da História, mesmo a mais recente, apontar para algo original, para um mundo admiravelmente novo. Restam para o leitor, que a estes ensaios dedicará a atenção que o tema e a qualidade dos textos aqui apresentados merecem, fragmentos de histórias e discursos sobre violência e não-violência, confiança e desespero, tentativas e fracassos: a confortar um presente incerto e apavorado pelo temor de uma violência que se percebe muitas vezes como incompreensível, mas somente porque ainda impensada em sua trajetória histórica.

Gabriele Cornelli
Filosofia - UnB